Na época de ouro da publicidade brasileira tudo era lindo e maravilhoso.
Campanhas milionárias, glamour, festas para todo lado, salários estratosféricos e produtores gráficos ficando ricos graças aos seus talentos.
Isso valia para agências, produtoras e fornecedores em geral.
A lucratividade era muito alta e dinheiro nunca era problema. Na verdade, nada era problema.
Faz pra amanhã! Claro, sem problemas.
Nosso cliente não gostou depois de ver tudo pronto. Faz de novo, mas agora sem prazo e sem cobrar a mais! Tudo bem, considere feito.
Faz de graça que esse é pra Cannes! Será um prazer.
O segredo para este relacionamento era resultado não somente da alta lucratividade, mas também da dependência que as produtoras tinham das agências, por ser a única indústria a investir em áudio, vídeo, efeitos especiais, casting, impressão, etc.
Quem não aceitava, estava fora da brincadeira. E como o prejuízo de um job desaparecia com o grotesco lucro do job seguinte, estava tudo bem.
Parecia sadomasoquismo, mas era simbiose.
Décadas passaram e uma legião de profissionais cresceu e aprendeu a viver deste jeito, mas sem entender os porquês, como aquela experiência dos macacos.
E como todos sabem, acabou a moleza. Bem, nem todos: os estudantes de publicidade ainda acreditam no glamour e nos salários gigantescos; os anunciantes continuam achando que as agências estão ricas e; as agências continuam não ligando para a saúde das produtoras.
O que importa é que agora, todo mundo conta os centavos e ninguém dá mais gorjeta pra frentista de posto.
Nesta levada, tudo que alguém inventa pra espremer fornecedores, se espalha mais rápido que gripe suína. Tem a Mesa de Compras, os leilões reversos (que deveriam se chamar leilões perversos) e até anunciantes que só pagam fornecedores em 170 dias.
Isso fora os atrasos de pagamento sem multa e aquela história do SAP — sistema de gestão usado por 10 entre 10 grandes corporações — parar de funcionar misteriosamente sempre na mesma época do ano, uma desculpa furada que anunciantes usam para empurrar pagamentos e fechar o ano fiscal em melhores condições.
Claro, é uma cadeia alimentar. A matriz cobra resultados do anunciante, que espreme a agência, que pisa na produtora, que esfola seus funcionários.
É o tal capitalismo selvagem, um sustentando o bônus do outro. Esta deve ser a verdadeira sustentabilidade.
Mas enfim, como a maioria de meus clientes não são produtoras, meus conselhos são voltados para agências e anunciantes.
E são dois, o primeiro é: não pise na grama.
A grama não vale nada, mas é ela que a vaca come para dar nosso leitinho.
Ter bons fornecedores é vital para qualquer mercado. É uma regrinha simples, mas por ser indireta e um pensamento de longo prazo, difícil de emplacar.
Ou assuma logo que comunicação é commodity, mas saiba viver com isso.
A segunda dica é mais prática: cuide dos contratos.
Uma burocracia chata mas necessária e que sempre foi ignorada. Ignorada porque antigamente eles não eram necessários e não valiam a pena. Em uma relação leonina, um contrato poderia defender o mais fraco, deixando de ser interessante para agências e anunciantes.
Mas como eu disse, o tempo passou, as margens diminuiram e outros mercados cresceram. Agora, muitas produtoras já não dependem das agências para sobreviver. A relação de poder mudou.
Sem contar que, graças a Mesa de Compras e a tendência de commoditização, surgiu um monte de fornecedor semi amador (ou na gíria pornô, pro-amateur) que não entrega o que promete.
E neste novo cenário, ter contratos passa a ser interessante para quem não está de brincadeira.
Fonte: www.coxacreme.com.br
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